Casos reais
LaMia 2933, o voo da Chapecoense: combustível, pressão e silêncio
Um voo planejado com combustível praticamente igual à distância, um alarme ignorado e uma emergência declarada 36 minutos depois. Uma tragédia que o Brasil acompanhou de perto.
Em poucas palavras
- 28 de novembro de 2016: Avro RJ85 de Santa Cruz de la Sierra para Rionegro (Medellín), com o time da Chapecoense.
- O combustível a bordo mal cobria a distância: sem reserva, sem alternado, sem contingência.
- O alarme de combustível baixo soou a cerca de 180 milhas do destino; a emergência só foi declarada 36 minutos depois.
Este é um caso que muitos brasileiros acompanharam ao vivo. O objetivo aqui não é revisitar a dor, e sim entender as decisões que levaram até ela, para que nenhuma tripulação as repita.
O que aconteceu
O voo 2933 da LaMia era um fretamento que levava o time da Chapecoense, comissão técnica e jornalistas de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, para Rionegro, que serve Medellín, na Colômbia. O avião era um Avro RJ85, com 77 pessoas a bordo.
A distância do voo era praticamente igual à autonomia do avião. O combustível abastecido mal cobria o trecho, sem nada para alternado, reserva ou contingência. O plano original previa uma parada para reabastecer em Cobija, mas a decolagem atrasou e esse aeroporto estaria fechado na chegada. A parada foi abandonada e não foi substituída por outra em rota.
O alarme de combustível baixo soou quando o avião ainda estava a cerca de 180 milhas do destino. A tripulação não desviou nem informou o controle. Já perto de Medellín, o avião entrou em espera junto com outros tráfegos, um deles com prioridade por um problema técnico. Só depois de quase duas voltas a tripulação pediu prioridade, falando em “problemas de combustível”, e a emergência foi declarada 36 minutos depois do alarme, quando os motores começavam a apagar.
Sem combustível, o avião caiu no Cerro Gordo, a cerca de 18 km da pista. Das 77 pessoas a bordo, 71 morreram e 6 sobreviveram.
A atitude por trás
O relatório final da autoridade colombiana (Aerocivil) apontou como causas o planejamento que não considerou combustível para alternado, reserva, contingência e pouso, a parada dos motores por esgotamento de combustível, e decisões ruins da empresa e da tripulação, que continuou com combustível crítico em vez de pousar para reabastecer. Entre os fatores contribuintes estão a falta de supervisão da empresa e a demora em pedir prioridade e declarar emergência.
Um detalhe torna o caso ainda mais didático: o comandante também era sócio da companhia. A pressão comercial não vinha de fora. Estava sentada no mesmo assento de quem decidia. Somada à invulnerabilidade (“dá para chegar”) e ao viés de continuação do plano, ela fechou todas as saídas.
Onde a cadeia podia ter quebrado
- No planejamento: combustível mínimo regulamentar não é negociável, nem para cliente importante.
- Quando a parada foi cancelada: replanejar com outra parada, em vez de seguir com a esperança de que daria.
- No alarme de combustível baixo: desviar e avisar o controle na hora. Havia aeroportos no caminho.
- Ao receber espera: declarar a situação real de combustível. Esconder a emergência não a faz desaparecer; só tira do controle a chance de ajudar.
A lição que serve para qualquer cabine
Combustível é a margem mais concreta que existe: dá para medir em quilos e em minutos. Quando alguém começa a tratar a reserva como parte do combustível de viagem, a conversa já saiu da segurança e entrou na aposta.
Fontes
- Aerocivil (Colômbia), Grupo de Investigación de Accidentes. Informe final · Avro RJ85 CP-2933, LaMia 2933, La Unión, Antioquia, 28 nov. 2016 (publicado em abr. 2018).