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Fatores humanos

Como o copiloto deve falar: PACE e a regra das duas tentativas

Ter razão não basta. O copiloto que vê o problema precisa fazer o comandante ouvir, no tempo certo e sem transformar a cabine num conflito.

TOGA Academy · · 3 min de leitura

Em poucas palavras

  • PACE: perguntar (Probe), alertar (Alert), desafiar (Challenge) e agir (Emergency).
  • Cada etapa sobe o tom e traz um fato concreto, não uma opinião.
  • Regra das duas tentativas: sem resposta adequada a dois alertas claros, siga o procedimento da sua empresa para incapacitação.

Os relatórios de acidente estão cheios de copilotos que perceberam o problema. Em Tenerife, o engenheiro de voo perguntou se o outro avião já tinha livrado a pista. No Garuda 200, o copiloto recomendou arremeter. Os dois falaram, e não foram ouvidos. A pergunta útil não é “por que ninguém falou?”, e sim “por que falar não foi suficiente?”.

PACE: subir o tom em etapas

A técnica PACE, muito usada em treinamentos de CRM, organiza a escalada em quatro níveis. A ideia é começar de forma educada e subir só o necessário, mas subir.

P

Probe · perguntar

“Comandante, a velocidade está 20 acima. Vamos manter?”

A

Alert · alertar com o fato e o risco

“Estamos desestabilizados a 1.000 ft. Isso pede arremetida.”

C

Challenge · desafiar com uma ação

“Comandante, arremete.”

E

Emergency · agir

Fazer o que a sua empresa prevê para ausência de resposta ou incapacitação.

O que torna a frase eficaz

  • Use o nome ou o cargo. “Comandante” chama a atenção antes do conteúdo.
  • Diga o fato, com número. “Velocidade +20” é mais difícil de ignorar do que “tá rápido, hein”.
  • Diga o risco. Qual é a consequência se nada mudar?
  • Proponha uma ação. “Sugiro arremeter” fecha a frase e pede uma resposta.
  • Peça confirmação. “Concorda?” obriga o outro a responder, e silêncio também é resposta.

A regra das duas tentativas

Se o comandante não responde de forma adequada a dois alertas claros sobre uma condição perigosa, a situação deve ser tratada como possível incapacitação, ainda que sutil. Um piloto pode estar consciente e conversando e, mesmo assim, não estar processando o que acontece: por fixação, fadiga, hipóxia ou um mal súbito.

A regra exata, com quem assume e com quais palavras, é a do manual de operações e do treinamento de CRM da sua empresa. Conheça a sua antes de precisar dela.

Antes do voo: combine

A escalada fica muito mais fácil quando foi combinada. Se o comandante não disser no briefing “se algo não parecer certo, fala”, o copiloto pode puxar o assunto: “combinado que qualquer um pode chamar a arremetida?”. É uma pergunta neutra, profissional e que deixa a porta aberta para o resto do voo.

E se o comandante reagir mal?

Mantenha o padrão, com respeito: “vou fazer os callouts do SOP, é como fui treinado e me ajuda a acompanhar”. Você não está questionando a competência dele, só mantendo a barreira. Se o comportamento se repetir, use os canais de reporte da empresa. É para isso que eles existem.

Fontes

  • Besco, R. O. · modelo PACE (Probing, Alerting, Challenging, Emergency warning) de escalada da comunicação, difundido em treinamentos de CRM desde os anos 1990.
  • FAA Advisory Circular AC 120-51E · Crew Resource Management Training.