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Fatores humanos

Aproximação desestabilizada: por que arremeter não é fracasso

A arremetida é uma manobra normal, treinada e prevista. Ainda assim, é a decisão que mais pilotos evitam tomar. Entender o porquê é o primeiro passo para tomá-la sem hesitar.

TOGA Academy · · 3 min de leitura

Em poucas palavras

  • Estudos da indústria indicam que só cerca de 3% das aproximações desestabilizadas terminam em arremetida.
  • O gate de estabilização existe para tirar a decisão do “sentimento” no momento de maior carga de trabalho.
  • Quem arremete bem não é o piloto que errou a aproximação: é o que não deixou o erro chegar ao chão.

Todo operador define critérios de aproximação estabilizada: trajetória correta, velocidade e razão de descida dentro de faixas, configuração de pouso feita, checklist completo, tudo isso a partir de uma altura definida, o chamado gate. Os números exatos são os do manual da sua empresa. A regra que vem junto é simples: desestabilizado no gate, arremete.

Simples no papel. Na prática, a imensa maioria das aproximações desestabilizadas continua até o pouso.

Por que a gente não arremete

  • Continuação do plano. A 500 ft, “já estamos aqui” pesa mais que qualquer critério. Veja o artigo sobre o viés de continuação do plano.
  • A arremetida parece confissão. Muitos pilotos sentem que arremeter é admitir que erraram a aproximação, diante do colega, dos passageiros e da empresa.
  • Quase sempre dá certo. A aproximação desestabilizada que termina num pouso normal ensina, de forma silenciosa, que dava para continuar.
  • Pressão operacional. Atraso, combustível, slot, conexão, jornada.
  • Falta de prática real. A arremetida com todos os motores, leve e com pouca altura, é treinada menos do que se imagina e pode ser exigente. A insegurança com a manobra empurra o piloto para o pouso.

O que a arremetida realmente custa

Alguns minutos e algum combustível. Do outro lado da balança estão as saídas de pista, os pousos duros, os toques de cauda e os pousos antes da cabeceira, eventos em que uma aproximação desestabilizada costuma aparecer como fator. Um dos exemplos mais claros é o do Garuda 200, em 2007: aproximação muito rápida e íngreme, alertas repetidos do avião, o copiloto pedindo para arremeter e o comandante seguindo até o pouso, a 221 kt.

Como transformar o gate numa decisão automática

  • Diga o gate no briefing. “No gate de 1.000 ft, se não estivermos estabilizados, arremetemos. Qualquer um de nós pode chamar.” Dito antes, vira um combinado, não uma crítica.
  • Callout com fato. “Velocidade +20, razão 1.400” é mais difícil de ignorar do que “tá meio rápido”.
  • Arremetida pedida é arremetida. Se o colega chamou, executa. Discute-se depois, no chão.
  • Mude a narrativa. Quem arremete bem não é o piloto que errou a aproximação; é o que não deixou o erro chegar ao chão. Na maior parte das empresas, ninguém é chamado para explicar uma arremetida bem feita.
  • Treine a manobra de verdade. Peça arremetidas variadas no simulador: leve, com todos os motores, de baixa altura, com mudança de autorização. Quem confia na manobra hesita menos.

No curso gratuito Psicologia no Voo o primeiro cenário de decisão é justamente uma aproximação desestabilizada a 1.000 ft. Vale testar o que você faria.

Fontes

  • Flight Safety Foundation. Go-Around Decision-Making and Execution Project, 2017.
  • SKYbrary. Go-Around Decision Making.
  • NTSC (Indonésia). Final report · Garuda Indonesia GA200, PK-GZC, Yogyakarta, 7 mar. 2007.